Violência

Hoje resolvi me revoltar, não tenho o que comer e nem mesmo o que beber. Penso que isso são motivos bastantes pra fazer mal aos outros, espero os idosos na porta do banco, as padarias e mercearias são meus alvos prediletos.

Mas já estou cansado de viver assim, melhor sequestrar alguém com dinheiro e assim ganho mais. Veja que senhora distinta, com belas roupas, e algumas jóias. Essa linda mulher será o meu alvo. Sem ela perceber lhe sigo ate sua casa, posso ver que o marido dela realmente tem dinheiro, olhe seu filho como é bem tratado e como se veste bem, bons brinquedos. Depois de muito observar, percebo que ela se deita pra dormir, e não tem mais ninguém na casa alem de seu filho pequeno, é a hora de agir. Estou a simular um simples assalto, mas com o objetivo de sequestrar a mulher e a criança. Entro em seu quarto bem quieto pra não perceber, meu instinto animal fala mais alto, amordaço sua boca rapidamente, e amarro seus braços com bastante firmeza, sem nem mesmo pensar me pego rasgando suas roupas, e fazendo coisas que nem prefiro me lembrar, seu filho um menino espero percebe tudo e se levanta, eu rapidamente vejo o movimento, e antes dele tentar alguma coisa, prendo ele em um quarto escuro, depois de machucar o pequeno garoto.

Mas como todo crime, acaba mal e com alguns feridos, no meio de tantos feridos, lá estou em uma cama de hospital, com vários médicos ao meu redor, e posso sentir o sangue escorrer no meu rosto. Na mesa de cirurgia sem poder fazer nada, vejo um rosto familiar, conheço esse médico. Mas como posso conhecer pessoa como ele? Bem de vida, com certeza nunca deve ter passado em uma favela, parece ser humilde e caridoso. Mas de repente no meio daquilo tudo, acabo tomando um choque de realidade, e no meio dos olhos azuis vejo uma raiva tão grande, mas já sei por que, pois era o mesmo homem que pude ver na cabeceira da cama da mulher, enquanto ela tentava se livrar de tamanha brutalidade. Veja como é a vida, estava violentando a mulher do medico, e espancando o seu filho, e agora horas depois, minha vida esta em suas mãos. Vejo nos seus olhos a raiva que ele sente por mim e ao pensar em tudo que fiz, posso perceber a vontade de me matar, sinto suas mãos tremulas na duvida de me salvar ou não. Ele deve cumprir o seu juramento de salvar qualquer vida ou fazer qualquer coisa pra isso? Deve ele ser o medico correto e bom? Ele tem minha vida em suas mãos e eu destrui uma boa parte da vida dele, com todo o meu egoísmo. Sei que tudo que eu passei na vida, não justifica o que eu fiz. Mas veja os olhos dele sedentos por vingança. Fico inconsciente, mas mesmo nesse estado não consigo parar de pensar no medico, e o que ele vai fazer. Depois de horas naquele lugar já me declaro morto, pois se eu fosse ele já teria tirado a vida do homem que destruiu sua família. Mas de repente meio tonto consigo abrir os olhos. Estou em uma sala de recuperação, e vejo vindo em minha direção aquele bom medico, não sei o que fazer, devo comprimentar e agradecer ou abaixar a cabeça e pedir desculpas? Mas nada disso vai amenizar a dor dele e nem retirar da memórias as coisas ruins. Mesmo dopado consigo entender tudo que ele me sussurra aos ouvidos. Aquela voz forte vem me falar que não me matou, pois não tinha esse direito, quem deve fazer isso na hora certa é Deus, mas faria de tudo pra me ver na cadeia onde é o meu lugar.

Depois de recuperado, é óbvio que fui julgado e com certeza condenado, mas o certo em minha mente é ficar indignado por ter sido detido e condenado. Mas quem sou eu pra fazer alguma coisa contra isso, o homem a quem eu fiz tanto mal, pode me salvar, enquanto podia ter me tirado a vida sem nem mesmo ser punido por isso. Não pensei que meus atos fossem ser tão graves, mas tudo que fiz me levou a um só lugar, ao fundo do poço, de onde eu acho que nunca devia ter saído. Mas veja a família do bom medico já esta se recuperando e com o tempo vão poder esquecer tudo isso. Mas agora estou no lugar que mereço, e nem posso reclamar disso tudo, pois tudo tem uma consequência, e agora com uma nova vida, boa ou ruim eu vou ter que arcar com o resultado dos meus atos.

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